Recife e Olinda também já acordariam diferentes hoje, vias interrompidas, jornalistas cobrindo todas as informações das mudanças e acessos para a noite de abertura do Carnaval.
Estaríamos respirando, como um fog londrino, a densidade da expectativa para a abertura da folia carnavalesca.
Turistas chegando de todas as partes do mundo para experimentar, no solo de Pernambuco, a maior festa popular a céu aberto, com aquele galo imponente na Avenida Guararapes.
O simples abrir os olhos na sexta feira e sair para o trabalho cedo, era compartilhado com as preocupações do dia mas sobretudo na grandiosidade da noite.
Desde cedo, pensar naqueles ajustes finais do figurino, apertar aqui e acolá para deixar tudo lindo e brilhando.
Era dia de maquinar a hora de sair do trabalho, para chegar em casa, se arrumar e partir para o Recife Antigo.
Nem que fosse a pé, mas hoje seria dia de tocar, o que ensaiamos durante quase cinco meses, de forma exaustiva em Olinda, desde setembro nas oficinas experimentais em Jardim Fragoso.
Para os coordenadores, era dia de ligar para a empresa de ônibus e verificar se estava tudo certo para a saída de Olinda rumo à Rua da Moeda, receber ligações dizendo que esqueceram talabarte, se poderiam levar a Alfaia da sede do Batuques, no ônibus para Recife.
Mas é para chegar que horas na Rua da Moeda? Que horas sai o ônibus? Depois da tocada, quem vai ficar um pouco lá no antigo? Alguém vai levar o Axé Yô? Essas perguntas já estariam inundando o grupo de mensagens instantâneas nos celulares do Batuques de Pernambuco. Dezenove horas na Rua da Moeda, essa era principal mensagem.
E a movimentação daquela multidão transforma o percurso de quinhentos metros, em uma maratona com mais de cinquenta quilômetros. De sorte, conseguir estacionar o carro, sem ter que gastar uma fortuna de estacionamento, ou ver angustia de ficar dentro de um coletivo, no infindável engarrafamento de todas as vias para o Recife Antigo.
No horário marcado, os batuqueiros começariam a aparecer no cruzamento da Rua Mariz e Barros com a Moeda. A cidade do Recife já estaria toda enfeitada, brilhando e os bares dos arredores já cheios, a concentração começando a aquecer os corações: - Cadê Guilherme e o ônibus de Olinda? Vai sair que horas? - Teve uma barreira e eles não conseguiram passar, estão vindo a pé, desde o prédio da Prefeitura.
E com todos já presentes, os três silvos do apito, era o chamados para a formação no meio da rua de paralelepípedos, sobre o olhar atento da estátua de Chico Science.
Antes da primeira batida da baqueta no couro esticado das alfaias. A tensão estava no ar!!! Batuqueiros ou batuqueiras dando o seu último gole na cerveja gelada, a última bicada no Axé, antes de iniciar o trajeto pelo Recife Antigo.
BORA BATUUUUUQUEEEEESSSSSSS!! SEQUENCIA NAÇÃO!!! PRIIIIIIIIIIIIIIIIII PRIIIIIIIIIIIIII, PRIIIIIIIIII PRIIIIIIIIIIIIIII
As batidas iniciais das Alfaias, Caixas, Agbê, Gonguê e Atabaques causariam um inusitado arrepio nos braços dos batuqueiros. Se olhássemos com mais atenção, até veríamos algumas lágrimas escoarem pelos olhos de alguém.
O público em volta, reagiria a nossa onda do Maracatu e estariam em êxtase, pulando conosco. Fogos de artifício pipocando no Recife Antigo, de forma a coincidir o nosso cortejo, com a abertura do Carnaval 2022.
E dessa forma, o Batuques de Pernambuco começaria a percorrer a cidade, mostrando a arte e a cultura percussiva, feita na Praça de Olinda, para dentro do Recife Antigo. Duas cidades conectadas, vibrando e pulsando o Carnaval de 2022.
Mas hoje, haverá silêncio, ruas estarão vazias, não terá o Galo imponente na Av Guararapes e uma pandemia que insiste em não permitir a explosão do ritmo, alegria, diversidade, multicultural, denominado Carnaval de Pernambuco.
O que fica hoje, é simplesmente o imenso vazio no peito, condensado em apenas uma palavra: Saudades.
💙💙💙💙💙😭😭😭😭😭
ResponderExcluirBela reflexão!👏🏽👏🏽👏🏽
ResponderExcluirBelíssimo texto! Parabéns!💙🥁
ResponderExcluirExcelente!!!!!!👏👏👏👏👏
ResponderExcluirQue saudades 💙💙
ResponderExcluirTexto lindo e emocionante! 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽
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